No alto do morro, mais afastada do centro da cidade ficava a “casinha”. Uma pequena casa abandonada onde nos encontrávamos. Bons tempos aqueles. A “casinha” era cercada por histórias e lendas, a que mais me fascinava contava a história do primeiro morador, na verdade este era pai de um de nossos amigos, e já era falecido. Me contaram a coisa toda numa das grandes noites de inverno, noites que passávamos consumindo bebidas e inalando solvente. Diziam que tomado por um surto de genialidade e criatividade este homem afirmou ter inventado um novo método para tratamento de doenças, inclusive a AIDS. Este método não tinha nada de novo, pois se tratava da dieta macrobiótica, a cura através da alimentação correta e dirigida. Porém, o fervor febril de fixação na idéia o levaram a loucura, ou,ao que pensavam ser loucura. Então construíram a “casinha” para ele e sua nova excentricidade de vida.
Através do uso do solvente como droga, eu tinha alucinações de todas as sortes, após ouvir essa história minhas viagens passaram a ter algo a ver com esse enigmático homem e sua loucura. Imaginava o fantasma dele a nos observar, cheguei de fato a ver um rosto pálido e mórbido em meio a fraca luz das velas. Essa alucinação me perseguiu por algum tempo, nunca revelei a ninguém, nunca iria assumir que sentia um pouco de medo.
Foi na casinha que tive minhas principais lições de vida na cultura alternativa . Passadas todas as grandes gerações dos anos 50 aos 90, estávamos no inicio do século 21, e nossa identidade como tribo urbana e mesmo como indivíduos era confusa. Na verdade até hoje não consegui me rotular, diria por fim, usando as palavras de Herman Hesse: não sou um homem que sabe, sim um homem que busca.
Hoje já passados quase dez anos a lembrança daquele lugar ainda me fascina e inspira, pois que todos naquela maldita e santa casa buscavam além do prazer e da liberdade, buscavam o conhecimento e alto afirmação.

eu posso dizer que fiz parte desta história!!! e lendo esse texto sinto que ajudei a construir parte desta história e isso me deixa contente e ao mesmo tempo com saudade da época em que nos reuniamos por um objetivo comum "a droga", a mesma que me levou a retirar do maior mal o meu maior bem, grande parte de meus amigos!!!
ResponderExcluircasinha??? como esquecer de um lugar como aquele, todos tivemos grandes experiências lá, experiencias diferentes e algumas iguais, a mais louca que ja tive foi com o "pássaro louco" lembra??? o que brigava com o proprio reflexo na janela da casinha, ele era o sinal que ja tinhamos descansado o suficiente e podiamos voltar as drogas. Lembra quando ficavamos na parte de cima??? era quase uma tribo, ficavamos de frente um para o outro e em silêncio para não perder a viajem, a viajem do "cola cola" nunca nos deixava na mão, mas tinha momentos ruins, quando a mãe de um amigo nosso aparecia com uma enxada e dizia "saiam daqui" e tenteava fazer com que fossemos embora, mas fazer o que, se ela só falava com nossos corpos por que nossa mente ja estava muito longe dali, foi um dos melhores lugares pra um jovem roqueiro, eu morava só a alguns metros dalí, ninguem roubava ninguem, ninguem brigava com ninguem, apesar de tentarmos por fogo no ninguem.
ResponderExcluirAli conheci meus melhores amigos, que são meus amigos até hoje, mas isso tudo é só um pouco de tudo que passamos alí, passamos por coisas que só os grandes astros do rock conseguiram passar, se é que passaram pela metade, ou até estou, mas o fato é que muitos nunca saberão como foi a não ser por pequenas histórias, apenas quem viveu saberá, poucos de nós.
Urso