
Ouve o tempo em que decidimos ir para o litoral caminhando. Uma longa e cansativa viagem, aproximadamente 120 kilometros. Pois que estávamos entre quatro amigos, e depois de algum tempo na estrada decidimos que já era hora de parar e preparar algo para comer. Nos embrenhamos em uma mata ao lado da rodovia e começamos os preparativos para o fogo e tudo mais. Era um dia cinzento e estávamos em algum ponto da cidade de Viamão. Haviam bambus por toda parte, o local era a parte de baixo de um barranco. Estava eu a catar lenha quando ouvi o grito:
"todo mundo com mão na cabeça."
Era a polícia, pude ver um deles escorregando pelo barranco com uma arma de grosso calibre na mão, o maldito uniforme cinza e as botas lustradas, soldadinhos de chumbo com coração de chumbo.Levaran-nos para cima, para o acostamento da rodovia. Ali fomos humilhados. Me lembro muito bem, havia um deles que era alto e gordo, com bochechas suínas, tinha um olhar de pedra e parecia que a qualquer momento iria nos espancar.
"O que vocês pensam que estão fazendo hen...andaram roubando por ai e estão se escondendo, seus vagabundos infelizes, aqui no meio do nada quem vai ver vocês hein.."
O policial com cara de suíno gritava e babava, eles estavam entre quatro também, porém esse era o mais exaltado.
"Seus monte de merda, agora quero ver o que vocês tem ai nessas mochilas fedorenta."
Do meu lado um dos meus amigos começou a chorar e dizia em vão que nós não tínhamos feito nada, o suíno me olhou percebendo que eu era o mais velho:
"E aí magrão, teu amigo ta chorando..."
Viraram tudo no chão: cuecas, camisas, escova de dentes.Tocaram fora toda nossa bebida. Foi quando o suíno revirou minhas coisas e achou três livros: Antologia dos poetas de São Borja, Textos anarquistas, e Traçando nova Iorque de Luís Fernando Verríssimo. Parecia um animal olhando para algo que não entende, naquele momento me senti maior.
Um policial mais velho desceu da caminhonete e se aproximou, olhou meus documentos.
"Gosta de poemas então são borjense."
Saquei na hora, aquele coroa era de patente superior ao suíno e a todos eles, me lembro exactamente do que ele nos disse:
"Vocês estam horríveis, o ser humano esta no topo, essa vida que vocês levam não leva a nada..."
Foram embora. Prometeram que se nos encontrassem de novo iriam nos recolher. Isso nunca aconteceu.
Quando seguimos viagem olhei para meu amigo que tinha chorado, jurei que nunca isso iria acontecer comigo.
Quando chegamos a praia de Tramandaí a impressão que tive era que nos odiavam. Nós não fazíamos o mau, éramos apenas hipies fora de época. Nesse dia fomos detidos duas vezes, sem motivo aparente. Nos ficharam, fotografaram, examinaram. Alegaram "perturbação da tranquilidade."
Quando saímos da delegacia era madrugada alta, seguimos para o mar.
Em Tramandaí um pouco antes da próxima praia Imbé, existem algumas pedras que se estendem pela costa até o mar. Ali nos sentamos, naquela noite consumimos solvente, senti o odor forte se espalhando no ar e minha mente se alterando.
Então eu chorei, chorei copiosamente.
Chorei pela nossa condição de malditos, pelo amor hipócrita, pela medíocre classe média, que simplesmente nos odeia por nós não nos importarmos com nada desse circo que eles tem. Chorei, e literalmente minhas lágrimas escorreram pelas pedras e se misturaram com a água do mar.

Ti lembra quando eu te mostrei o sol na beira da praia de tramandai pela manha?
ResponderExcluirQuanto as tuas lagrimas, bem , elas se transformaram no oceano.Ti lembra quando eu te mostrei o sol na beira da praia de tramandai pela manha?
Quanto as tuas lagrimas, bem , elas se transformaram no oceano.