domingo, 3 de janeiro de 2010

O velho capitão


A meia hora de caminhada do vilarejo de Santa Helena, ficava o antigo cemitério.
Já fora de uso a duas gerações, guardava em seu fúnebre leito os restos dos que um dia foram os fundadores do vilarejo.
Suas lápides encardidas, vasos e cruzes, tudo ali lembrava abandono e solidão.
Foi nesse lugar que encontrei o fantasma do capitão pela primeira vez.

Naquele tempo a energia da juventude e sua inconsequecia tinham me levado a caminhos tortuosos. Procurei o antigo cemitério numa de minhas fugas das surras de meu pai.
Nesse dia o sol ardia furioso, e uma brisa morna soprava levemente. Encostado a um velho túmulo eu comia laranjas e pensava em como voltar pra casa. Então o velho capitão apareceu...

Trajava uma velha farda azul e botas pretas. Usava barba e chapéu. Tinha uma voz forte e grave. Suas primeiras palavras foram:

_O que fazes tão longe de casa guri?Onde estão teus pais?
_Eu...Eu estou comendo laranjas...
_Não sabes que é perigoso uma criança por ai sozinha?
_Eu não tenho medo.
_Pois deveria, a maldade humana é imprevisivel.

E assim o velho foi embora. Incrível que logo na primeira vez já me ocorreu a ideia de que o capitão era uma alma penada.
Na outra semana voltei, mas dessa vez, o que me levou foi apenas a curiosidade. Então pela segunda vez vi o capitão, que desta vez estava ajoelhado em frente a uma grande cruz que ficava no centro do cemitério. Não chamei sua atenção. fiquei apenas observando tudo. Como era triste aquela cena. Dali podia sentir toda frieza da solidão, e com o vento minuano veio o inevitável: o medo da morte.
Talvez o velho capitão nem soubesse que estava morto, talvez estivesse ainda em sua guerra, em sua revolução. Fiquei olhando para a cruz, então percebi que mais uma vez o fantasma tinha sumido.

Quando o inverno chegou e cobria toda manhã os campos de branco, eu já tinha me esquecido do cemitério. Então achei um velho jornal, e lá estava a foto do capitão:
"Aos heróis da revolução de 30..."
O velho fantasma era um herói!
E nesse mesmo dia voltei ao cemitério, e quando o capitão se aproximou mostrei o jornal e disse:
_Capitão, a guerra acabou.
_Eu já sabia meu filho, apenas não podia deixar toda minha terra pra trás. Vê tudo isso aqui? É meu, meu!
Senti pena. Mesmo sendo uma criança compreendi a lição que a vida me ensinava.
Compreendi como o apego iludia o fantasma.
Fui embora e prometi a mim mesmo nunca mais voltar.
E até hoje imagino o velho capitão solitário andando por suas terras.

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